Dia a dia do RH
January 2022

Como a desigualdade de salários pode prejudicar a saúde da sua equipe

Em junho deste ano, um estudo divulgado pela FGV mostrou que a pandemia aumentou a desigualdade social para um nível recorde e provocou uma diminuição na renda dos trabalhadores. O estudo evidenciou que o valor que as empresas dão aos seus colaboradores é capaz de impulsionar ou diminuir a desigualdade social no país. Mas isso não é de hoje. 

O impacto da desigualdade de renda na economia global é notório há anos. Só nos Estados Unidos, desde 1990, a desigualdade no emprego, na educação e nos salários custou 22,9 trilhões de dólares à economia, segundo estudo desenvolvido pelas Universidades de Boston e de Stanford, em parceria com o Federal Reserve de São Francisco. 

Portanto é inegável que, quanto maior a desigualdade social, maior o custo financeiro e estrutural para as empresas. Seja por precisarem arcar com menores lucros ou por lidar com profissionais pouco preparados física e psicologicamente para desempenhar um bom trabalho. Apesar do cenário desafiador, no entanto, as companhias são capazes de diminuir esse déficit e podem transformar a realidade nacional. 

Um estudo apresentado pelos pesquisadores Niklas Engbom, da Universidade de Nova York, e Christian Moser, da Universidade Columbia, mostrou que os aumentos reais do salário mínimo representaram uma das principais políticas para a queda da desigualdade de rendimentos no Brasil entre 1994 e 2014. Esse aumento, mostrou a pesquisa, foi mais substancial para remunerações dos trabalhadores na base da distribuição de renda. Mas mesmo os brasileiros que ganhavam muito mais do que isso se beneficiaram. 

Uma grande contradição, porém, é que as empresas são fortemente impactadas pela desigualdade social, mas, ao mesmo tempo, também são responsáveis diretamente por propagá-la. Um levantamento divulgado neste ano pelo IBGE revelou que em 2019 as mulheres receberam, em média, 77,7% do montante auferido pelos homens. E essa desigualdade aumenta à medida que elas ocupam cargos e funções maiores. Entre diretores e gerentes, por exemplo, as mulheres receberam 61,9% do rendimento dos homens.

Entre pessoas brancas e negras, esse abismo salarial chega a até a 45%, de acordo com a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) de 2019. E, segundo cálculo do Instituto Locomotiva, mesmo que se isole todas as demais variáveis e se mantenha apenas a cor da pele, a diferença salarial é de 31%, quando comparados os salários de brancos e negros com ensino superior.

E o que isso tem a ver com saúde? 

De acordo com dados do Inquérito Nacional, no ano de 2020 o Brasil registrou 19,1 milhões de pessoas em situação de fome, voltando a atingir os patamares de 2004. Entre as famílias que estão em situação de insegurança alimentar, 73,8% são em lares chefiados por mulheres e 66,8% por pessoas pretas. Segundo dados da ONU, mais de 3 bilhões de pessoas não têm como bancar uma alimentação saudável. No Brasil, 116,8 milhões de pessoas conviveram com algum grau de insegurança alimentar nos últimos meses do ano.

Ou seja, mesmo quando as pessoas não estão passando fome, o dinheiro ainda não é suficiente para custear uma alimentação balanceada. Elas, então, recorrem aos ultraprocessados, alimentos mais baratos, mas pobres em nutrientes e ricos em aditivos químicos, o que significa que elas se tornarão obesas, mas permanecem sem consumir os nutrientes necessários para uma vida saudável. 

Assim, a pobreza tem a capacidade de provocar obesidade e subnutrição, ambos problemas de saúde relacionados à má alimentação. E esta é apenas uma das marcas da igualdade social em nossa sociedade. Um estudo realizado publicado pelo Centro de Estudos Estratégicos da Fiocruz apontou que, durante a pandemia, o sofrimento mental é resultado de como determinantes sociais interagem com o indivíduo neste período.

No entanto, a pandemia, por si só, apenas simboliza um movimento que já vem sendo notado há anos na sociedade. Apenas na última década, diversos estudos demonstraram como a pobreza, violência política, racismo, violência de gênero, entre outras discriminações impulsionam os resultados da saúde mental das populações. Isso se reflete, também, no mercado de trabalho. 

As desigualdade sociais impulsionam uma carga de responsabilidade superior às mulheres, incumbidas de cumprir as tarefas domésticas e de papéis relacionados ao cuidado, como enfermeiras e trabalhadores de atendimento ao público. Enquanto, pessoas negras estão mais expostas ao racismo e ao estigma no ambiente de trabalho, o que aumenta a exclusão social e o isolamento, agravando o sofrimento mental. 

Diante de números tão significativos, está mais do que claro como as empresas exercem uma influência relevante na desigualdade social e, por consequência, na saúde dos seus funcionários. No fim das contas, oferecer salários dignos e justos, sem realizar qualquer tipo de descriminização, faz bem para toda a sociedade, para os colaboradores e para a própria empresa.

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