Saúde da equipe
January 2022

Como o trabalho pode se tornar um ambiente de melhora de saúde (e não o contrário)

Para muitas pessoas nenhum filme de terror é tão angustiante quanto a segunda-feira. As últimas horas do domingo parecem antecipar o desgaste psicológico atribuído com frequência ao ambiente de trabalho. Em meio a salários injustos, falta de reconhecimento profissional e excesso de tarefas, trabalhar vem se tornado sinônimo de doença, quando o papel dele deveria ser justamente o oposto.

Poucas palavras estiveram tão em evidência no mercado de trabalho dos últimos anos quanto “burnout”. Potencializado pelo isolamento social e pela pandemia, o debate sobre saúde mental se tornou essencial nas empresas, tanto é que a síndrome passou a ser classificada como uma doença decorrente do trabalho por determinação da Organização Mundial de Saúde (OMS). 

A verdade é que o trabalho, inegavelmente, desperta uma série de gatilhos emocionais. Ter que cumprir prazos, seguir comandos, lidar com pressão e interagir com cenários diferentes dos quais está habituado, por si só, já são experiências inquietantes. No entanto, se estes gatilhos forem reconhecidos e ressignificados como possibilidades de aprendizado, o trabalho deixa de ser um lugar de conflito para ser espaço de cura e crescimento. 

É necessário que o primeiro passo para que isso aconteça seja dado pelas empresas. A atenção com os colaboradores não deve ser algo restrito ao processo seletivo e a escolha do convênio médico. O RH precisa compreender que uma boa carreira não significa abrir mão da própria saúde em detrimento de mais horas trabalhadas, jornadas desgastantes e cobranças desmedidas. Acima de tudo, a instituição tem que saber ouvir as demandas do time. 

As companhias brasileiras podem aprender com as norte-americanas a partir do pedido de demissão em massa que aconteceu nos EUA durante 2021, motivada por aspectos como estresse e esgotamento, pouca perspectiva profissional e falta de espaços de escuta no local de trabalho. Batizada de “A Grande Renúncia”, o movimento simboliza uma tendência já bastante referenciada ao redor do globo de que os trabalhadores são, sim, capazes de abrir mão de um emprego para que fiquem bem consigo mesmos. 

Prova disso é que 90% dos colaboradores querem um trabalho flexível e 54% admitem largar o emprego caso isso não aconteça, de acordo com dados levantados pela consultoria EY. Um levantamento realizado pela BetterUp mostrou que nove em dez profissionais de carreira sacrificariam cerca de 23% dos seus salários por um trabalho mais significativo para suas vidas.

É a partir da escuta ativa e entendimento do que faz ou não sentido para os colaboradores que as empresas devem promover ações e criar um ambiente de trabalho que busque proporcionar saúde física e mental ao time. Deve-se acabar, também, com o mito da produtividade infinita, ninguém precisa estar disponível a todos os instantes do dia e da noite para ser um bom profissional. E é fundamental que o reconhecimento seja realizado de forma ativa e direcionada para fazer surgir o sentimento de pertencimento no trabalho. 

Outro ponto importante é que não basta oferecer uma série de benefícios relacionados à saúde ou ao aumento da produtividade se não existe um acompanhamento e direcionamento claro por parte dos fornecedores ou do RH. O caminho para o trabalho deixar de ser um ambiente adoecedor para tornar-se um local de promoção de saúde e de cuidado passa, necessariamente, pelo acolhimento. Não é possível diminuir o impacto dos gatilhos emocionais relacionados ao ofício sem, antes, praticar a empatia. 

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