Saúde da equipe
January 2022

O machismo pode estar impactando a saúde mental dos seus colaboradores

É impossível dissociar o ambiente de trabalho do que acontece na sociedade. Ser homem ou mulher no mundo corporativo significa suscitar uma série de expectativas e ordens de comportamentos que, se não forem cumpridas, podem causar danos graves à saúde mental. Um exemplo disso é que ao passo que apenas 37,4% dos cargos gerenciais no Brasil são ocupados por mulheres, também são elas que mais sofrem com crises de burnout

Alimenta-se neste ambiente de exaltação da produtividade a qualquer custo o mito de que as mulheres são capazes de se dedicar com plenitude à realização de várias atividades ao mesmo tempo. Por isso, recai sobre elas as obrigações previstas em contrato de trabalho, mas, também, os afazeres domésticos e até deveres mentais. Ainda assim, elas são menos consideradas para ganhar promoções e assumir cargos de maior responsabilidade. 

Um estudo realizado pela consultoria Great Place to Work mostrou que mães com empregos remunerados têm 23% mais chances de sofrer um burnout do que pais empregados. De acordo com a pesquisa Women in the Workplace 2021, feita pela consultoria McKinsey & Company e pela organização LeanIn, 43% das mulheres sofrem com sintomas de burnout. Entre os homens, são 35%. 

É notório, por pesquisas e pela experiência empírica, que mulheres enfrentam desafios sintomáticos no ambiente de trabalho que inegavelmente podem se traduzir em transtornos mentais. No entanto, é importante apontar que os homens enfrentam, também, uma crise de saúde mental. E, por conta do machismo, preferem permanecer em silêncio do que procurar ajuda e tratamento. 

Caso a empresa presencie comportamentos agressivos, desrespeitosos com as mulheres e até a pratica de assédio sexual ou moral, deve prontamente tomar atitudes, seja para repreender, seja para denunciar no âmbito formal. Piadas nocivas devem ser combatidas, toques indesejados devem ser apontados e qualquer outra forma de violência precisa ser penalizada - inclusive, criminalmente. 

No entanto, os próprios homens também, em algum momento, se tornam vítimas do termo que ficou conhecido como “masculinidade tóxica”. A ideia de que eles não podem se mostrar sensíveis, devem ser provedores para o lar e adotar certos comportamentos para se tornarem parte dos grupos de trabalho, os estimula a evitar falar sobre emoções e repetir atitudes majoritárias sem abrir questionamentos. 

Ao reprimir sentimentos e evitar se abrir para temas importantes, os homens se tornam vulneráveis a padecer em crises mentais. Tanto é que eles se matam quatro vezes mais que as mulheres no Brasil. De acordo com dados do Ministério da Saúde, a taxa de mortalidade por suicídio é de 2,4 mulheres a cada 100 mil, enquanto, para os homens, chega a 9,2 para cada 100 mil. 

E esses números exorbitantes são, em parte, culpa da falta de informação e da associação da depressão a uma fraqueza. Uma pesquisa encomendada pela Pfizer mostrou que 29% dos homens acreditam que a doença é um mito. Além disso, em geral eles cuidam bem menos da própria saúde do que as mulheres, tanto para a saúde física quanto a mental. 

O papel das empresas

As pessoas passam, em média, um terço da vida no trabalho. As discussões do mundo real, portanto, também são importantes para as organizações. Enquanto os papéis de homens e mulheres estão em debate, as empresas não podem se manter indiferentes. É necessário que se criem ações informativas, de inclusão e até de denúncia para tornar o cenário menos prejudicial para todas as pessoas. 

O RH deve promover campanhas de conscientização e de educação dos colaboradores. Explicar de forma firme e atuar continuamente para desaprovar as atitudes sexistas reproduzidas pelo time, sejam elas feitas de forma consciente ou inconsciente. Isso vale para condutas mais “leves”, como interromper uma mulher enquanto ela fala ou para ações mais “pesadas”, como assédios e violência verbal. 

Porém, o colaborador não pode ser puramente penalizado, é fundamental que exista um esforço conjunto entre líderes, gestores e RH para que o foco seja na instrução e moderação. Se possível, crie comitês de diversidade, grupos de conversa com especialistas e apresente cases de como estas atitudes podem ser benéficas para os colaboradores no âmbito profissional e pessoal. 

O estudo Getting to Equal 2019: Creating a culture that drives innovation, realizado pela consultoria Accenture, apontou que 85% das companhias que têm cultura voltada à igualdade não têm medo de errar para inovar. Ou seja, uma empresa que se preocupa com o bem-estar mental e físico dos colaboradores a partir da perspectiva de gênero e diversidade, também vão se beneficiar com times mais produtivos, criativos e inovadores. 

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