Saúde da equipe
January 2022

Prevenção ao suicídio: do discurso à prática

No mês em que a prevenção do suicídio é colocada em evidência, precisamos refletir: como sair do discurso para a prática?

Um dos pontos centrais nessa questão é justamente como abordar esse assunto quando suspeitamos que alguém está pensando em morrer por suicídio. Perguntar a alguém que parece desesperado se está pensando em morrer nunca será fácil. Não é apenas a natureza sensível da conversa, ou o fato de ser um tabu. Alguns ainda temem que simplesmente levantar o assunto possa ser perigoso, pois poderia colocar ideias na mente de quem já está sofrendo e induzir um comportamento de risco.

A experiência clínica e evidências de pesquisas mostram o contrário: o silêncio sobre o tema isola quem está sofrendo em um universo de pensamentos que não podem ser compartilhados e podem tomar proporções perigosas - da ideia à ação.

Não podemos esperar que o tema seja abordado somente por especialistas: cerca de metade de todos os adultos que morrem por suicídio são atendidos em um serviço de Atenção Primária à Saúde no mês anterior à morte e somente cerca de 20% foram atendidos por especialistas em saúde mental1. Isso porque muitas pessoas não procuraram atendimento à saúde por queixas específicas relacionadas à depressão, por exemplo. Muito do sofrimento psíquico apresenta-se como sintomas clínicos diversos - e a oportunidade de identificar o risco de suicídio frequentemente passa despercebida.

Em um estudo denominado “Não vamos falar sobre isso”, realizado no norte da Califórnia, atrizes foram treinadas para desempenhar o papel de pacientes com sintomas de depressão visitando um médico3. As gravações das consultas revelaram que menos de 27% dos médicos indagaram se a paciente havia pensado em morrer por suicídio. Os autores do estudo sugerem que alguns pareciam desconfortáveis ​​em discutir o assunto, temiam que isso encorajasse tentativas de suicídio ou que, se o paciente tivesse sentimentos suicidas, não teria experiência suficiente para intervir. Curiosamente, aqueles que tiveram experiências pessoais de depressão em suas vidas ou com familiares eram mais propensos a abordar o assunto.

A pandemia da COVID-19 segue colocando nossa saúde física e mental em xeque. Diversos fatores de risco para o suicídio, como dificuldade de acesso à serviços de saúde, desemprego, solidão, divórcios e violência doméstica têm aumentado a cada dia, provavelmente repercutindo nos índices de tentativas e mortes por suicídio, ainda que não existam dados oficiais disponíveis.

É fundamental, mais do que nunca, que profissionais de saúde de todas as áreas - não somente da saúde mental - ampliem o olhar e deixem de lado o receio e a insegurança. Temos também que abrir espaço de diálogo em nossos relacionamentos pessoais, para que o tema apareça e seja discutido, sem medo, e a tempo.

Mas como fazer isso? Voltamos à questão inicial: a prática.


Dicas para iniciar a conversa

  • Tente estar confortável, mesmo que se sinta desconfortável: como discutimos até aqui, para a maioria das pessoas (incluindo profissionais de saúde), perguntar sobre suicídio provoca ansiedade - e isso faz sentido. Falar sobre vida e morte é intenso. Observe e reconheça seus sentimentos e faça o possível para ficar centrado antes de iniciar a conversa. Seu físico e sua presença emocional terá um grande impacto sobre o andamento da conversa. Então, respire fundo e lembre-se: não é o fato de trazer o tema à tona que aumentará o risco.
  • Encontre um lugar para privacidade e conforto. Dependendo da situação, isso pode significar dar um passeio ao ar livre ou encontrar um lugar tranquilo para se sentar. Tire um tempo para desligar o telefone e fechar a porta também, para não ser interrompido.
  • Comece com: "Eu percebi que..." liste as suas observações que o deixaram preocupado. Fale sobre situações e comentários específicos onde a intenção da pessoa de se ferir pareceu evidente. Talvez você tenha notado uma mudança no humor, como irritação ou melancolia. Talvez você tenha notado uma mudança no comportamento, como aumento do consumo de álcool. Talvez existam fatores de risco como divórcios ou ainda comentários frequentes como “Eu gostaria de sumir” ou até “Eu preferia estar morto”.
  • Faça perguntas abertas, como "Eu gostaria de entender mais sobre o que você está passando. Você pode me contar?"
  • Pratique a escuta ativa e abstenha-se de resolver problemas e dar conselhos. Em vez disso, mostre à pessoa que ela está sendo ouvida. Use incentivos, como “E então... o que aconteceu?” para manter a conversa.
  • Formule a questão com empatia e compaixão, sem julgamentos: “Quando as pessoas estão passando pelo que você está passando, elas tem uma dor inimaginável. Pensamentos como “eu gostaria de poder ir para a cama e não acordar de manhã” podem passar pela sua mente porque a dor excedeu sua capacidade de lidar com isso.”
  • Como os pensamentos suicidas são comuns em situações de sofrimento psíquico, você pode dizer algo como “As vezes, quando a dor emocional é tão intensa, as pessoas pensam em suicídio. Estou me perguntando quantas vezes o suicídio pode ter passado pela sua cabeça, mesmo que seja apenas de forma passageira."
  • Atenção: use uma linguagem direta. Usar a palavra “suicídio” de forma direta significa: “Podemos falar sobre isso aqui”. É importante usar a linguagem direta de "suicídio" em vez de "se machucar", porque essas são perguntas diferentes.
  • Conheça os recursos disponíveis: familiarize-se com os recursos de suporte que estão disponíveis. Em todo Brasil o CVV (Centro de Valorização da Vida) está disponível pelo número 188 para acolhimento em situações de crise e sofrimento. Também é possível conversar com voluntários do CVV por chat e até pessoalmente. Veja mais informações no site: https://www.cvv.org.br/.


Como lidar com a resposta?

  • Se a resposta for “não”: observe qualquer pista não verbal. Se a pessoa está na defensiva e não consegue manter o contato visual, é provável que algo mais esteja acontecendo. Nesses casos, tente apontar a ambivalência e dizer: "Você está me dizendo que está bem, mas sinto que está evitando fazer contato visual comigo. Você pode me ajudar a entender isso?”. Nesses casos, talvez você precise persistir fazendo a pergunta de maneiras diferentes.
  • Se o “não” for realmente um “não”, a pessoa provavelmente expressará gratidão por você se importar o suficiente para estender a mão e continuará a falar sobre seus problemas. Evite dizer: “Ainda bem que não pensou nessa besteira” ou “Ótimo, nunca pense nessa coisa horrível”. Não feche o canal de comunicação!
  • Se a resposta for “sim”: as primeiras palavras que devem sair da sua boca são “Obrigado por me contar”. Expresse gratidão pela confiança que ela depositou em você e como valoriza seu relacionamento. A segunda coisa que você deve fazer é demonstrar seu sentimento de parceria dizendo algo como: "Estou com você e vamos descobrir como lidar com isso juntos. Eu não quero que você morra”. A terceira coisa a dizer é apontar caminhos de cuidado, como serviços de atenção à saúde disponíveis ou até uma ligação em conjunto ao CVV. Nunca, absolutamente nunca, diga coisas como “não pense besteira” ou “você já imaginou como sua família e amigos irão sofrer?”. A pessoa já está experimentando sofrimento e provavelmente culpa o bastante. Essas frases também fecham canais de comunicação que podem salvar vidas!
  • Atenção: investigue se a pessoa já tem um plano. Se além da resposta “sim” ela já investigou ou decidiu como faria para morrer por suicídio, é necessário que um profissional de saúde seja consultado o quanto antes. Diga: “O suicídio é um problema muito grande para lidarmos sozinhos. Preciso de ajuda”.
  • Se o risco é imediato, procure juntamente com a pessoa um serviço de Atenção Primária à Saúde ou um pronto-socorro. Não deixe a pessoa sozinha e certifique-se de que não há objetos que ofereçam risco, como facas, armas e medicamentos.


E depois?

Fique por perto. Às vezes planejar um café ou almoço. Às vezes, uma caminhada em um parque próximo ou um simples telefonema. Não importa o que pareça, faça um plano específico para acompanhamento, dizendo algo como: "Vou entrar em contato amanhã para ver como você está". Acompanhar pode fazer muita diferença, independentemente de como a conversa foi.


Cuide-se! Se você está vivenciando um momento difícil e o suicídio vem como ideia recorrente, ligue agora para 188 - CVV  - Centro de Valorização da Vida ou converse com um voluntário por Chat no site https://www.cvv.org.br/


Fontes

1 - World Health Organization. (2014). Preventing suicide: A global imperative.

2 - Gould MS, Marrocco FA, Kleinman M, et al. Evaluating Iatrogenic Risk of Youth Suicide Screening Programs: A Randomized Controlled Trial. JAMA. 2005;293(13):1635–1643. doi:10.1001/jama.293.13.1635.

3 - Feldman MD, Franks P, Duberstein P, Vannoy S, Epstein R, Kravitz R. Let’s Not Talk About It Suicide Inquiry in Primary Care. Ann Fam Med (2007) 5:412–8. 10.1370/afm.719

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